A literatura infantil e a disseminação de ideologias

 

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Em 1930, Viriato Correia escreveu o conto infantil “A revolta do galinheiro”, mesmo ano em que ocorreu o golpe de estado que pôs fim à República Velha. Na década de 1980, final da Ditadura Militar, o texto se popularizou novamente nas escolas, sendo utilizado como literatura pedagogizante.

O conto narra a história de uma revolta que se instalou dentro de um galinheiro, liderada pelo garnisé, que desejava fugir e conquistar a liberdade fora daquelas telas de arame. No entanto, havia um galo velho, o vovô, que preferiu não participar da revolta, pois possuía no galinheiro tudo o que ele precisava para viver. Três dias após a fuga do grupo rebelde, um frango carijó retornou ao galinheiro e contou ao galo que havia ficado todas as desgraças que ocorreram após a partida. A república tão sonhada não funcionou, pois todos queriam mandar. Não havia milho para se alimentar, nem remédios para tratar as doenças. Além disso, houve um ataque de raposas que dizimou quase todo o grupo, e que tirou a vida do próprio garnisé. O frango carijó foi um dos únicos que conseguiu fugir, retornando arrependido para o galinheiro e sendo recebido de braços abertos pelo vovô.

O texto representa uma moral implícita, apresentando as concepções distintas de liberdade para o garnisé e para o vovô. Para o primeiro, a liberdade era viver longe das telas de arame, onde cada um fizesse o que teria vontade. Para o segundo, a liberdade eram as necessidades satisfeitas, o descanso, a segurança e a paz do galinheiro. O espírito rebelde do garnisé contrasta com o conservadorismo do vovô. As galinhas que fugiram sonhando com uma república, no entanto, acabam apenas sofrendo desgraças, e o frango carijó, um dos poucos que sobreviveram, retorna ao galinheiro arrependido. A concepção de liberdade do vovô, portanto, é a que se mostra como vitoriosa, visto que a república que as galinhas desejavam no momento da fuga, na verdade, tornou-se um caos.

A literatura pedagogizante é muito utilizada nas escolas, para ensinar bons comportamentos, normas e valores. E não é por nada que textos como “A revolta do galinheiro” tenham sido tão utilizados em épocas tão específicas, principalmente em períodos em que não havia liberdade de expressão. Podemos dizer que o garnisé representa os jovens e seu espírito de rebeldia (que é criticado), e o vovô representa o conservadorismo e a sabedoria dos mais velhos (que é valorizada). Portanto, se as crianças fossem, desde cedo, doutrinadas a aceitar pacificamente a condição em que viviam e a aprender com a experiência dos mais velhos, seriam minimizadas, mais tarde, as possibilidades de existirem pessoas revoltadas com o governo. Ou seja, assim como o vovô, o povo teria suas necessidades supridas em troca de “bico calado” e submissão.

Dessa forma, estamos diante de uma literatura para crianças, mas não unicamente voltada ao interesse delas, uma vez que o papel principal desse tipo de texto é disseminar determinadas ideologias, semeando suas diretrizes desde cedo nas novas gerações e manipulando mentes.

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