Cecília Meireles e Olavo Bilac: um diálogo possível

Woman at the Window at Figueres, de Salvador Dalí - 1926
“Woman at the Window at Figueres”, de Salvador Dalí. 1926.

Quem nunca leu algum texto e, instantaneamente, lembrou-se de outro? Não é novidade que os textos conversam entre si. Muitos deles fazem uso da intertextualidade, ou seja, os autores inspiram-se em outras leituras e as integram às suas composições. O leitor pode perceber ou não o uso desse recurso, bem como pode estabelecer relações entre textos distintos que, possivelmente, nem tenham sido pensadas por quem os escreveu.

Gostaria de compartilhar, aqui, uma experiência de leitura que tive com a crônica “Arte de ser feliz”, de Cecília Meireles. Selecionei-a para desenvolver um trabalho sobre esse gênero, com os alunos do ensino médio. Quando li o texto, logo veio à minha memória o soneto XIII, da composição “Via-Láctea”, de Olavo Bilac.

Na crônica, a voz que narra gosta de observar de sua janela o mundo do lado de fora e se sente muito feliz fazendo isso. Quando ela conta suas experiências para as pessoas, umas dizem que essas coisas não existem ou que só existem nas janelas dela, outras dizem que é preciso aprender a olhar para ver as coisas nesse ponto de vista. No poema, o eu-lírico tem um “amigo” para o qual ele fala de sua experiência de ficar olhando as estrelas e conversando com elas através de sua janela. Ao ser chamado de louco pelo amigo, o eu-lírico responde dizendo que é preciso amar para ouvir e entender as estrelas.

Não tenho certeza se Cecília Meireles realmente se inspirou em Olavo Bilac, mas, como leitora, pude perceber essas relações. Acredito, portanto, que seja um diálogo possível.