Sobre como me tornei leitora

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Eu já era leitora antes mesmo de conhecer o alfabeto e as palavras, desde o momento em que eu observava as ilustrações em livros ou gibis, imaginava a história que estava se passando e a narrava para quem estivesse por perto. Naquela época, eu nem imaginava o quanto isso influenciaria meus gostos, interesses e decisões futuras, e o quanto a disposição da minha mãe seria importante. Ter aprendido a ler, para mim, foi tão emocionante quanto uma descoberta e, desde então, tenho utilizado esse tesouro para ampliar o saber e conhecer novas histórias.

Tudo começou em 1998, quando eu soube que o meu primeiro dia na escola estava se aproximando. Ficava imaginando como seria aquele momento, cheia de expectativas, sendo que a maior delas era aprender a ler e a escrever. O detalhe era que eu não sabia que não ensinavam isso para crianças de quatro anos, na pré-escola. Todavia, fui, toda empolgada, para o grande dia, com a certeza de que voltaria para casa lendo tudo o que encontrasse pelo caminho.

Claro que não foi exatamente como eu esperava. O primeiro dia é aquele de conhecer os espaços da escola, a sala de aula colorida, a professora, a diretora, os colegas, as “tias” do lanche e da limpeza, o lugar onde guardam os brinquedos e os livros de histórias infantis, entre outras coisas. Inutilmente, fiquei aguardando pelo momento em que a professora diria: “Bem, turma, a diversão acabou. Agora vamos ler e escrever”. Entretanto, a tarde chegou ao fim, já estava na hora de ir embora, o que eu esperava não aconteceu, e isso se repetiu durante todo o ano. Eu queria brincar, mas não o tempo todo. Gostava da “hora do conto”, mas eu também queria ler as histórias, porque a professora era a única pessoa que lia naquela sala de aula. Era divertido fazer desenhos e pintar, mas eu gostaria também de colocar letras no papel, e eu só tinha aprendido a escrever o meu nome.

Não tive escolha naquele ano, portanto, guardei todas as minhas esperanças para 1999, quando minha família se mudou de cidade e eu estava prestes a ser matriculada em uma nova escola. Quem sabe as professoras da outra cidade ensinassem os alunos a ler e a escrever? Porém, eu estava enganada outra vez. Era ainda cedo demais para isso; faltava ainda um ano para o Ensino Fundamental. Após várias aulas frustradas, desisti de frequentá-las. Bati perna, chorei, fingi dores de barriga. Gritava o tempo todo: “Eu quero ler e escrever! Não quero mais brincar!” Minha mãe, então, que não estava trabalhando fora naquele ano, dedicou-se em me ensinar as primeiras palavras, pois estava cansada dos meus lamentos.

Em 1999, passei mais dias em casa do que na escola, e finalmente aprendi a ler e a escrever. No ano seguinte, comecei o Ensino Fundamental, já corrigindo erros ortográficos dos colegas e até mesmo da professora. Retirava um livro por semana na biblioteca e, quando voltava para casa, ansiosa e curiosa pela história, procurava um lugar sossegado e arejado e começava a leitura. Lia o máximo que podia, como se fosse para compensar todo o tempo que eu esperei para poder fazer isso.

Embora, hoje, a rotina não permita que eu leia tanto, procuro brechas entre um compromisso e outro para entrar em um mundo que não seja o meu. A prática da leitura tem direcionado minhas escolhas e proporcionado o interesse pela língua, a paixão pela literatura e mais conhecimento. Nesse processo, o apoio dos meus pais foi fundamental e, graças à minha mãe, ganhei um ano extra na minha vida para praticar a leitura. Como leitora e estudante de Letras, sinto-me dando continuidade a essa história, que começou tão cedo, e espero poder despertar em mais pessoas o gosto pelas palavras.

Imagem retirada de: http://diariodigitalcastelobranco.pt/detalhe.php?c=6&id=32618

O amor em “Como água para chocolate”

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“Como água para chocolate” (1989), da autora mexicana Laura Esquivel, é uma obra rica para ser estudada. Neste texto, procurei reunir diversos elementos encontrados nela, relacionando-os ao amor presente na narrativa. Leitores, espero que gostem e que fiquem com vontade de ler o livro!

O romance reúne, simultaneamente, um livro de receitas e o diário da protagonista Tita, que vive com a mãe e as duas irmãs no México, no século XX. Trata-se de uma história de amor proibido, visto que a personagem principal é a irmã mais nova e por isso não podia se casar, devendo cuidar de sua mãe durante toda sua vida, segundo uma antiga tradição. No entanto, Tita se apaixona por Pedro e sua mãe fica extremamente revoltada com isso. Então, para resolver a situação, que em seu ponto de vista é inconcebível, ela oferece sua outra filha Rosaura em casamento e Pedro acaba aceitando, pois é a única maneira de ficar próximo de sua verdadeira amada.

As receitas assumem um papel importante no romance, pois é através delas que a história é contada. Cada capítulo da obra conta com uma receita diferente, e cada receita se relaciona a um episódio vivido por Tita. Além disso, os ingredientes absorvem os sentimentos da protagonista e os cardápios elaborados por ela provocam as mesmas sensações em quem os experimenta. Se durante o preparo das receitas ela estava alegre, as pessoas que provariam a comida ficariam alegres também. O trecho abaixo mostra como o próprio alimento incorpora os sentimentos de quem está à sua volta:

“Alguma coisa de anormal estava acontecendo. Tita se lembrou de que Nacha sempre lhe dizia que quando duas ou mais pessoas discutiam enquanto estavam preparando “tomales”, estes ficavam crus. Podiam passar dias e dias sem ficarem cozidos, pois os “tomales” ficavam com raiva. Nestes casos era preciso que se cantasse para eles, para que ficassem contentes de novo e conseguissem ficar cozidos” (ESQUIVEL, 1989, p. 179).

Como se pode perceber, a autora acrescentou na narrativa o humor, que aparece durante o romance e contrasta com a história triste de Tita marcada pelo amor proibido. Dessa forma, apesar de provocar no leitor a frustração pela má sorte da protagonista, “Como água para chocolate” é uma obra capaz de surpreender por meio da fantasia, como em um trecho em que a cozinha é alagada pelas lágrimas de Tita, e levar ao riso através de momentos cômicos.

A história de Tita pode ser uma referência a Penélope, esposa de Ulisses – personagens da mitologia grega que aparecem na Odisseia, de Homero. Enquanto Penélope aguardava o marido retornar da Guerra de Troia, tecia uma mortalha para seu sogro durante o dia e desfazia o trabalho à noite e, dessa forma, nunca terminava a tarefa. “O mito de Ulisses e Penélope mostra um relacionamento que resiste ao tempo, à tentação e à longa separação” (GREENE, L. e SHARMAN-BURKE, J. 2001, p. 124). Em “Como água para chocolate”, o amor também é resistente e, assim como Penélope, Tita fica tecendo uma colcha em seus momentos de solidão, porém, diferentemente do mito, ela não faz isso na esperança de que Pedro volte para ela, e sim com o objetivo de “tentar aquecer sua existência vazia” (IACK, 2013).

Essas sensações térmicas também se relacionam ao amor em “Como água para chocolate”, e acompanham Tita em diversos momentos. Em situações de profunda tristeza, ela sente frio em seu interior, em contrapartida, diante do amor e de momentos alegres, o calor toma conta do corpo e da alma.

“Decidiu dar utilidade à lã em lugar de desperdiçá-la e raivosamente teceu e chorou e teceu, até que pela madrugada terminou a colcha e jogou-a sobre si mesma. De nada adiantou. Nem nessa noite nem em muitas outras mais enquanto viveu conseguiu controlar o frio” (ESQUIVEL, 1989, p. 16).

“Por um momento nos sentimos deslumbrados por uma intensa emoção. Se produzirá em nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passe o tempo, até que venha uma nova explosão a reavivá-lo. Cada pessoa tem de descobrir quais são seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se produz ao acender-se um deles é o que nutre de energia a alma” (p. 94 – 97).

Além da relação com a temperatura, por meio deste trecho, como também de diversos outros momentos, o romance transmite outra ideia em relação ao amor: sua duração “transcende a da vida” (PINO, 2000, p. 76).

Portanto, a representação do amor, em “Como água para chocolate”, protagonizada pelas personagens Tita e Pedro, apresenta-se através da repressão sofrida pelos amantes, por ser negada a eles a união. Todavia, o sentimento prevalece, assim como o de Penélope e Ulisses, aquece o corpo e a alma e transcende até mesmo o plano físico. Além disso, se há momentos tristes, eles logo são amenizados por meio do bom humor e da fantasia. A leitura é instigante, fluente e interessante, com episódios de aflição contrastando com o fantástico, o humor e a sensualidade.

REFERÊNCIAS

ESQUIVEL, L. Como água para chocolate. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

GREENE, L. e SHARMAN-BURKE, J. Casamento. In: _____. Uma viagem através dos mitos: o significado dos mitos como um guia para a vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 124.

IACK, E. O paladar do amor em: como água para chocolate. Entrelinhas, São Leopoldo, v. 7, n. 1, jan./jun. 2013. Disponível em: Acesso em: 29 jun. 2014.

PINO, D. O imaginário na representação do amor: Como água para chocolate. In: SARAIVA, J. Semiótica: olhares. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.

Imagem retirada de: http://www.cineplex.com/Movie/like-water-for-chocolate/Photos