Cecília Meireles e Olavo Bilac: um diálogo possível

Woman at the Window at Figueres, de Salvador Dalí - 1926
“Woman at the Window at Figueres”, de Salvador Dalí. 1926.

Quem nunca leu algum texto e, instantaneamente, lembrou-se de outro? Não é novidade que os textos conversam entre si. Muitos deles fazem uso da intertextualidade, ou seja, os autores inspiram-se em outras leituras e as integram às suas composições. O leitor pode perceber ou não o uso desse recurso, bem como pode estabelecer relações entre textos distintos que, possivelmente, nem tenham sido pensadas por quem os escreveu.

Gostaria de compartilhar, aqui, uma experiência de leitura que tive com a crônica “Arte de ser feliz”, de Cecília Meireles. Selecionei-a para desenvolver um trabalho sobre esse gênero, com os alunos do ensino médio. Quando li o texto, logo veio à minha memória o soneto XIII, da composição “Via-Láctea”, de Olavo Bilac.

Na crônica, a voz que narra gosta de observar de sua janela o mundo do lado de fora e se sente muito feliz fazendo isso. Quando ela conta suas experiências para as pessoas, umas dizem que essas coisas não existem ou que só existem nas janelas dela, outras dizem que é preciso aprender a olhar para ver as coisas nesse ponto de vista. No poema, o eu-lírico tem um “amigo” para o qual ele fala de sua experiência de ficar olhando as estrelas e conversando com elas através de sua janela. Ao ser chamado de louco pelo amigo, o eu-lírico responde dizendo que é preciso amar para ouvir e entender as estrelas.

Não tenho certeza se Cecília Meireles realmente se inspirou em Olavo Bilac, mas, como leitora, pude perceber essas relações. Acredito, portanto, que seja um diálogo possível.

A literatura infantil e a disseminação de ideologias

 

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Em 1930, Viriato Correia escreveu o conto infantil “A revolta do galinheiro”, mesmo ano em que ocorreu o golpe de estado que pôs fim à República Velha. Na década de 1980, final da Ditadura Militar, o texto se popularizou novamente nas escolas, sendo utilizado como literatura pedagogizante.

O conto narra a história de uma revolta que se instalou dentro de um galinheiro, liderada pelo garnisé, que desejava fugir e conquistar a liberdade fora daquelas telas de arame. No entanto, havia um galo velho, o vovô, que preferiu não participar da revolta, pois possuía no galinheiro tudo o que ele precisava para viver. Três dias após a fuga do grupo rebelde, um frango carijó retornou ao galinheiro e contou ao galo que havia ficado todas as desgraças que ocorreram após a partida. A república tão sonhada não funcionou, pois todos queriam mandar. Não havia milho para se alimentar, nem remédios para tratar as doenças. Além disso, houve um ataque de raposas que dizimou quase todo o grupo, e que tirou a vida do próprio garnisé. O frango carijó foi um dos únicos que conseguiu fugir, retornando arrependido para o galinheiro e sendo recebido de braços abertos pelo vovô.

O texto representa uma moral implícita, apresentando as concepções distintas de liberdade para o garnisé e para o vovô. Para o primeiro, a liberdade era viver longe das telas de arame, onde cada um fizesse o que teria vontade. Para o segundo, a liberdade eram as necessidades satisfeitas, o descanso, a segurança e a paz do galinheiro. O espírito rebelde do garnisé contrasta com o conservadorismo do vovô. As galinhas que fugiram sonhando com uma república, no entanto, acabam apenas sofrendo desgraças, e o frango carijó, um dos poucos que sobreviveram, retorna ao galinheiro arrependido. A concepção de liberdade do vovô, portanto, é a que se mostra como vitoriosa, visto que a república que as galinhas desejavam no momento da fuga, na verdade, tornou-se um caos.

A literatura pedagogizante é muito utilizada nas escolas, para ensinar bons comportamentos, normas e valores. E não é por nada que textos como “A revolta do galinheiro” tenham sido tão utilizados em épocas tão específicas, principalmente em períodos em que não havia liberdade de expressão. Podemos dizer que o garnisé representa os jovens e seu espírito de rebeldia (que é criticado), e o vovô representa o conservadorismo e a sabedoria dos mais velhos (que é valorizada). Portanto, se as crianças fossem, desde cedo, doutrinadas a aceitar pacificamente a condição em que viviam e a aprender com a experiência dos mais velhos, seriam minimizadas, mais tarde, as possibilidades de existirem pessoas revoltadas com o governo. Ou seja, assim como o vovô, o povo teria suas necessidades supridas em troca de “bico calado” e submissão.

Dessa forma, estamos diante de uma literatura para crianças, mas não unicamente voltada ao interesse delas, uma vez que o papel principal desse tipo de texto é disseminar determinadas ideologias, semeando suas diretrizes desde cedo nas novas gerações e manipulando mentes.

Neurociência e aprendizado

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Recentemente, assisti, em sala de aula, ao vídeo “A neurociência do aprendizado”, da neurocientista Suzana Herculano-Houzel. Como o próprio título já sugere, a especialista faz a relação entre as duas áreas. Recomendo a quem se interessa pelo assunto e, principalmente, para professores e estudantes de licenciatura.

Destaquei alguns pontos que achei relevantes sobre o vídeo. Primeiramente, quero transcrever uma fala que considerei uma das mais importantes ditas pela neurocientista: “O aprendizado é sempre possível”. Não é “de vez em quando”, nem com ressalvas. É sempre. Claro que a dificuldade pode apresentar-se maior dependendo de idade ou outros fatores, mas a possibilidade sempre existe.

Outro ponto importante: meninos e meninas são IGUALMENTE capazes de aprender qualquer coisa. Apesar de algumas pesquisas indicarem o contrário, a especialista refuta a hipótese de que o gênero é determinante para o desenvolvimento de determinadas habilidades. O que pode influenciar nesse processo são os gostos de cada um e a motivação.

Estes são os fatores mais importantes que contribuem para o aprendizado:

– Atenção e prática: Só conseguimos prestar atenção em uma coisa de cada vez. A atenção funciona como um filtro para eleger a informação mais importante para ser colocada em foco em um determinado momento.

– Método: Cada pessoa possui o mais adequado para si. É importante que o professor ofereça o maior número de métodos possível, para que o aluno escolha o mais adequado e tenha um aprendizado melhor.

– Motivação: Processo interior determinante para o aprendizado. É QUERER aprender.

No entanto, nada disso acontece se não houver OPORTUNIDADE. O conhecimento deve estar sempre à disposição.

A especialista explica, também, como funcionam as sinapses no nosso cérebro e como nós lidamos com o grande número dessas conexões ao longo da vida. Além disso, é mencionada a nossa memória de trabalho e com quantas informações ela consegue operar a cada instante. Nosso cérebro é realmente surpreendente. Vale a pena assistir.

A Suzana Herculano-Houzel tem um site próprio, com muitos vídeos, artigos, entrevistas etc.: http://www.suzanaherculanohouzel.com/

O vídeo “A neurociência do aprendizado” consegui assistir e fazer o download por este link: https://archive.org/details/Neurocienciasnarducao

Imagem retirada de: http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/bioconexoes/imagens/corra02.jpg/image_preview

Filho de peixe…

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Um dia, escutei uma história que me fez pensar… Aí, tempos depois, coloquei no papel e fiz uma reflexão sobre isso, pensando nos exemplos que as crianças recebem em casa e em como isso se reflete na vida delas. Preocupa saber que casos como o relatado abaixo sejam, em nosso país, mais comuns do que imaginamos.

Uma professora de Ensino Fundamental, em uma aula, questionou os alunos sobre a profissão que gostariam de exercer no futuro. Em meio a futuros bombeiros, médicos, policiais, engenheiros e músicos, recebeu esta resposta surpreendente de um aluno: “Quero ser ladrão.” Após o choque, tentou fazer com que o menino mudasse de ideia, sem sucesso. Queria mesmo era roubar. Alguns dias mais tarde, ficou sabendo que o pai daquele estudante estava preso por furtos.

É comprovado que a criança tende a imitar seus pais. Para ilustrar essa verdade, a instituição de caridade Child Friendly, da Australia, publicou um vídeo que está circulando na internet. Nele aparecem homens e mulheres sendo agressivos, jogando lixo no chão, maltratando animais, entre outros péssimos hábitos, enquanto seus filhos os observam e tomam as mesmas atitudes. O que mais choca é ver os pequenos agindo dessa forma, mas aquelas cenas servem para mostrar que eles estão em uma fase de aprendizado e que, muito provavelmente, quando adultos, repetirão a postura de seus pais.

Psicólogos afirmam que os pais, como primeiro contato social, são referência na vida dos filhos. As escolhas, as decisões, o caráter, o temperamento, os gostos, entre outros fatores, tendem a ser norteados e influenciados pela família. Sendo assim, o que pode estar acontecendo com as crianças que agridem professores e colegas, maltratam animais, desobedecem a normas, desrespeitam os mais velhos? Se elas são reflexo da educação recebida em casa, algo pode estar errado lá.

A família é essencial para o desenvolvimento físico, moral e psicológico do ser humano. Frases já consideradas clichê, como “Filho de peixe peixinho é” ou “A educação começa em casa”, revelam verdades. Carregamos conosco uma bagagem de características, aprendizados e valores (sejam eles bons ou ruins) que herdamos de nossos pais. Cabe a eles compreender sua importância e assumir a responsabilidade pela formação de seus filhos.

A importância da família na vida do ser humano está em amar, ser presente, sustentar, apoiar, dar exemplo e ensinar o perdão, a bondade, a paciência, o respeito, o amor ao próximo. Os filhos precisam aprender que para conseguir o que desejam é necessário esforço, que nem tudo acontece da maneira como queremos, que o dinheiro e o tempo devem ser bem administrados, que não se deve tirar vantagem dos outros, que o estudo abre portas.

Por mais que a escola se esforce, a educação é responsabilidade da família. De nada adianta a preocupação e a boa vontade daquela professora em fazer o aluno querer uma profissão digna, enquanto ele tiver um pai o ensinando a roubar.