Cecília Meireles e Olavo Bilac: um diálogo possível

Woman at the Window at Figueres, de Salvador Dalí - 1926
“Woman at the Window at Figueres”, de Salvador Dalí. 1926.

Quem nunca leu algum texto e, instantaneamente, lembrou-se de outro? Não é novidade que os textos conversam entre si. Muitos deles fazem uso da intertextualidade, ou seja, os autores inspiram-se em outras leituras e as integram às suas composições. O leitor pode perceber ou não o uso desse recurso, bem como pode estabelecer relações entre textos distintos que, possivelmente, nem tenham sido pensadas por quem os escreveu.

Gostaria de compartilhar, aqui, uma experiência de leitura que tive com a crônica “Arte de ser feliz”, de Cecília Meireles. Selecionei-a para desenvolver um trabalho sobre esse gênero, com os alunos do ensino médio. Quando li o texto, logo veio à minha memória o soneto XIII, da composição “Via-Láctea”, de Olavo Bilac.

Na crônica, a voz que narra gosta de observar de sua janela o mundo do lado de fora e se sente muito feliz fazendo isso. Quando ela conta suas experiências para as pessoas, umas dizem que essas coisas não existem ou que só existem nas janelas dela, outras dizem que é preciso aprender a olhar para ver as coisas nesse ponto de vista. No poema, o eu-lírico tem um “amigo” para o qual ele fala de sua experiência de ficar olhando as estrelas e conversando com elas através de sua janela. Ao ser chamado de louco pelo amigo, o eu-lírico responde dizendo que é preciso amar para ouvir e entender as estrelas.

Não tenho certeza se Cecília Meireles realmente se inspirou em Olavo Bilac, mas, como leitora, pude perceber essas relações. Acredito, portanto, que seja um diálogo possível.

Um daqueles poemas de “servir o chapéu”

Apenas gostaria de registrar uns versos de Mario Quintana, que facilmente fazem “servir o chapéu” aos leitores. A felicidade pode estar mais perto do que nós pensamos!

DA FELICIDADE

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!

Arma de Instrução em Massa

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A obra de arte da foto, denominada “Arma de Instrução em Massa” é criação do artista argentino Raul Lemesoff. O antigo tanque de guerra, transformado em biblioteca móvel, possui espaço para armazenar, aproximadamente, 900 livros, que são provenientes de doações. O artista circula com o veículo pela Argentina, distribuindo os livros em regiões carentes, mas ele pretende ir além das fronteiras argentinas, a outros países da América Latina. Quem quer que a Arma de Instrução em Massa “ataque” sua cidade?

A literatura infantil e a disseminação de ideologias

 

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Em 1930, Viriato Correia escreveu o conto infantil “A revolta do galinheiro”, mesmo ano em que ocorreu o golpe de estado que pôs fim à República Velha. Na década de 1980, final da Ditadura Militar, o texto se popularizou novamente nas escolas, sendo utilizado como literatura pedagogizante.

O conto narra a história de uma revolta que se instalou dentro de um galinheiro, liderada pelo garnisé, que desejava fugir e conquistar a liberdade fora daquelas telas de arame. No entanto, havia um galo velho, o vovô, que preferiu não participar da revolta, pois possuía no galinheiro tudo o que ele precisava para viver. Três dias após a fuga do grupo rebelde, um frango carijó retornou ao galinheiro e contou ao galo que havia ficado todas as desgraças que ocorreram após a partida. A república tão sonhada não funcionou, pois todos queriam mandar. Não havia milho para se alimentar, nem remédios para tratar as doenças. Além disso, houve um ataque de raposas que dizimou quase todo o grupo, e que tirou a vida do próprio garnisé. O frango carijó foi um dos únicos que conseguiu fugir, retornando arrependido para o galinheiro e sendo recebido de braços abertos pelo vovô.

O texto representa uma moral implícita, apresentando as concepções distintas de liberdade para o garnisé e para o vovô. Para o primeiro, a liberdade era viver longe das telas de arame, onde cada um fizesse o que teria vontade. Para o segundo, a liberdade eram as necessidades satisfeitas, o descanso, a segurança e a paz do galinheiro. O espírito rebelde do garnisé contrasta com o conservadorismo do vovô. As galinhas que fugiram sonhando com uma república, no entanto, acabam apenas sofrendo desgraças, e o frango carijó, um dos poucos que sobreviveram, retorna ao galinheiro arrependido. A concepção de liberdade do vovô, portanto, é a que se mostra como vitoriosa, visto que a república que as galinhas desejavam no momento da fuga, na verdade, tornou-se um caos.

A literatura pedagogizante é muito utilizada nas escolas, para ensinar bons comportamentos, normas e valores. E não é por nada que textos como “A revolta do galinheiro” tenham sido tão utilizados em épocas tão específicas, principalmente em períodos em que não havia liberdade de expressão. Podemos dizer que o garnisé representa os jovens e seu espírito de rebeldia (que é criticado), e o vovô representa o conservadorismo e a sabedoria dos mais velhos (que é valorizada). Portanto, se as crianças fossem, desde cedo, doutrinadas a aceitar pacificamente a condição em que viviam e a aprender com a experiência dos mais velhos, seriam minimizadas, mais tarde, as possibilidades de existirem pessoas revoltadas com o governo. Ou seja, assim como o vovô, o povo teria suas necessidades supridas em troca de “bico calado” e submissão.

Dessa forma, estamos diante de uma literatura para crianças, mas não unicamente voltada ao interesse delas, uma vez que o papel principal desse tipo de texto é disseminar determinadas ideologias, semeando suas diretrizes desde cedo nas novas gerações e manipulando mentes.

O amor em “Como água para chocolate”

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“Como água para chocolate” (1989), da autora mexicana Laura Esquivel, é uma obra rica para ser estudada. Neste texto, procurei reunir diversos elementos encontrados nela, relacionando-os ao amor presente na narrativa. Leitores, espero que gostem e que fiquem com vontade de ler o livro!

O romance reúne, simultaneamente, um livro de receitas e o diário da protagonista Tita, que vive com a mãe e as duas irmãs no México, no século XX. Trata-se de uma história de amor proibido, visto que a personagem principal é a irmã mais nova e por isso não podia se casar, devendo cuidar de sua mãe durante toda sua vida, segundo uma antiga tradição. No entanto, Tita se apaixona por Pedro e sua mãe fica extremamente revoltada com isso. Então, para resolver a situação, que em seu ponto de vista é inconcebível, ela oferece sua outra filha Rosaura em casamento e Pedro acaba aceitando, pois é a única maneira de ficar próximo de sua verdadeira amada.

As receitas assumem um papel importante no romance, pois é através delas que a história é contada. Cada capítulo da obra conta com uma receita diferente, e cada receita se relaciona a um episódio vivido por Tita. Além disso, os ingredientes absorvem os sentimentos da protagonista e os cardápios elaborados por ela provocam as mesmas sensações em quem os experimenta. Se durante o preparo das receitas ela estava alegre, as pessoas que provariam a comida ficariam alegres também. O trecho abaixo mostra como o próprio alimento incorpora os sentimentos de quem está à sua volta:

“Alguma coisa de anormal estava acontecendo. Tita se lembrou de que Nacha sempre lhe dizia que quando duas ou mais pessoas discutiam enquanto estavam preparando “tomales”, estes ficavam crus. Podiam passar dias e dias sem ficarem cozidos, pois os “tomales” ficavam com raiva. Nestes casos era preciso que se cantasse para eles, para que ficassem contentes de novo e conseguissem ficar cozidos” (ESQUIVEL, 1989, p. 179).

Como se pode perceber, a autora acrescentou na narrativa o humor, que aparece durante o romance e contrasta com a história triste de Tita marcada pelo amor proibido. Dessa forma, apesar de provocar no leitor a frustração pela má sorte da protagonista, “Como água para chocolate” é uma obra capaz de surpreender por meio da fantasia, como em um trecho em que a cozinha é alagada pelas lágrimas de Tita, e levar ao riso através de momentos cômicos.

A história de Tita pode ser uma referência a Penélope, esposa de Ulisses – personagens da mitologia grega que aparecem na Odisseia, de Homero. Enquanto Penélope aguardava o marido retornar da Guerra de Troia, tecia uma mortalha para seu sogro durante o dia e desfazia o trabalho à noite e, dessa forma, nunca terminava a tarefa. “O mito de Ulisses e Penélope mostra um relacionamento que resiste ao tempo, à tentação e à longa separação” (GREENE, L. e SHARMAN-BURKE, J. 2001, p. 124). Em “Como água para chocolate”, o amor também é resistente e, assim como Penélope, Tita fica tecendo uma colcha em seus momentos de solidão, porém, diferentemente do mito, ela não faz isso na esperança de que Pedro volte para ela, e sim com o objetivo de “tentar aquecer sua existência vazia” (IACK, 2013).

Essas sensações térmicas também se relacionam ao amor em “Como água para chocolate”, e acompanham Tita em diversos momentos. Em situações de profunda tristeza, ela sente frio em seu interior, em contrapartida, diante do amor e de momentos alegres, o calor toma conta do corpo e da alma.

“Decidiu dar utilidade à lã em lugar de desperdiçá-la e raivosamente teceu e chorou e teceu, até que pela madrugada terminou a colcha e jogou-a sobre si mesma. De nada adiantou. Nem nessa noite nem em muitas outras mais enquanto viveu conseguiu controlar o frio” (ESQUIVEL, 1989, p. 16).

“Por um momento nos sentimos deslumbrados por uma intensa emoção. Se produzirá em nosso interior um agradável calor que irá desaparecendo pouco a pouco conforme passe o tempo, até que venha uma nova explosão a reavivá-lo. Cada pessoa tem de descobrir quais são seus detonadores para poder viver, pois a combustão que se produz ao acender-se um deles é o que nutre de energia a alma” (p. 94 – 97).

Além da relação com a temperatura, por meio deste trecho, como também de diversos outros momentos, o romance transmite outra ideia em relação ao amor: sua duração “transcende a da vida” (PINO, 2000, p. 76).

Portanto, a representação do amor, em “Como água para chocolate”, protagonizada pelas personagens Tita e Pedro, apresenta-se através da repressão sofrida pelos amantes, por ser negada a eles a união. Todavia, o sentimento prevalece, assim como o de Penélope e Ulisses, aquece o corpo e a alma e transcende até mesmo o plano físico. Além disso, se há momentos tristes, eles logo são amenizados por meio do bom humor e da fantasia. A leitura é instigante, fluente e interessante, com episódios de aflição contrastando com o fantástico, o humor e a sensualidade.

REFERÊNCIAS

ESQUIVEL, L. Como água para chocolate. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

GREENE, L. e SHARMAN-BURKE, J. Casamento. In: _____. Uma viagem através dos mitos: o significado dos mitos como um guia para a vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 124.

IACK, E. O paladar do amor em: como água para chocolate. Entrelinhas, São Leopoldo, v. 7, n. 1, jan./jun. 2013. Disponível em: Acesso em: 29 jun. 2014.

PINO, D. O imaginário na representação do amor: Como água para chocolate. In: SARAIVA, J. Semiótica: olhares. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.

Imagem retirada de: http://www.cineplex.com/Movie/like-water-for-chocolate/Photos